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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Sab | 11.02.17

Saudade

A saudade tem nome?
Há quem creia que sim.
Que lhe outorgue rostos, lugares, momentos e ensejos. Saudade é pena, é ânsia, é lembrança, é um reencontro com a reminiscência, um sentir sem querer, um querer sem saber, se a saudade existe e é real, porque se quer, ou porque remembrar, é um modo de querer e viver.
Revejo a saudade nos ramos da árvore antiga, que espreitam o primeiro andar do edifício antigo, cujas raízes golpeiam implacavelmente o chão. A força do vento faz baloiçar os seus ramos fortes e com ele oiço o som infindável do seu uivo, que clama por tempos antigos.
Saudade é divagar, é viajar dentro de nós mesmos, mas para que tal ocorra, é necessário sair. E nem sempre tempos consciência da jornada que se inicia.
Percebemo-nos dentro dela quando, inexplicavelmente, a nossa mente nos guia pelos caminhos longínquos do passado, sem que percebamos porquê. Circunstâncias supostamente insignificantes, que surpreendentemente preenchem um espaço e um tempo, em nós.
Figuras que fizeram parte da nossa vida e que mal memoramos, surgem inexplicavelmente, na vigília do nosso espírito, como se, afinal, o seu papel fosse superior ao que lhes outorgámos e determinámos.
Espaços e momentos desmemoriados, surgem e com eles nos arrojam, como se, contra todas as possibilidades, ali pertencêssemos, gerando um trio e um todo extraordinariamente complexo: mente, espírito e pensamento.
Remiro-me nos ramos daquela árvore, porque como eles vou meneando, com a força incessante do vento. O som insistente do seu uivar amedronta-me e faz-me duvidar.
Mas como as suas estirpes, também as minhas raízes, me prendem à terra e falam mais alto.
A saudade não tem nome. Tem cheiro, tem sabor e tem cor.
Tem o cheiro da terra molhada, acabada de regar.
Cheira a um dia de chuva, a um estojo de lápis novo, à escola a começar.
Cheira ao café da avó acabado de fazer, na velha cafeteira, que ferve no fogão, por baixo da chaminé antiga.
Cheira à maresia, numa manhã de verão, fria.
Sabe à doçura de um abraço carregado de ternura, ao afago e aconchego dos lençóis, ao deitar, no fim do dia.
Sabe à canja de galinha da mãe, que tudo cura, com amor.
Tem a cor do arco íris, num dia em que a chuva se cruza com o calor.
Saudade não tem nome, mas tem cheiro, sabor e cor.
Saudade, cheira a um jardim colorido, numa manhã de primavera. Sabe a um bolo caseiro com tempero de amor. Tem a cor do pôr do sol, num fim de tarde de verão, que fecha o dia e aquece a alma. E o coração.
 
 

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