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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Sex | 21.04.17

O tempo voa

O tempo voa.

E com ele, a sensação de intemporalidade, com a qual crescemos, rodeados de afetos e lugares comuns.

Nem todos crescemos com raízes. Alguns simplesmente medram e aprendem, sem atirar sementes à terra.

Outros…ai esses outros.

Crescem e vão deixando raízes que se pregam resolutamente ao chão.

Quisera eu tantas vezes não as ter. Porque quem não as tem, é desprendido e quem as detém, está irremediavelmente preso ao fio ténue da memória.

Ténue, porque por vezes parece tão estreito, que quase questionamos a sua existência. Mas o certo, é que nos momentos autênticos esse fio apresenta-se inquebrável, como se fizesse parte integrante de nós. Como se, no dia em que o mesmo se desfizer, também nós nos retiraremos deste mundo.

Somos como somos. Uns mais emotivos, outros mais afoitos, uns mais desligados, outros, sem saberem exatamente por quê, vitalmente conetados a sítios, pessoas, memórias e lugares.

Uns olham apenas e resolutamente, para a frente e para o caminho tentador, que o futuro exibe.

Outros, de forma indecifrável, vão avançando, mas a um passo mais lento e pensativo. Sensitivo. Porque reconhecem a beleza de apreciar o percurso e a relevância de se estar vivo. Como se todos aqueles passos tivessem já sido dados e detivessem a perceção de que o principal não é o destino, mas a alegria do caminho. E então, usufruem de cada passo dado, cada rumo, cada nova figura que se achega, cada sensação, cada lugar, porque têm presente a propósito de que nada é exclusivamente o que aparenta, tudo é mais, do que o perceptível aos nossos olhos.

O principal está disfarçado. E para se conhecer ou conquistar, é necessário tempo.

Tempo sem pressas e olhos abertos para o que existe, além do primeiro olhar.

Quando penso em felicidade, penso em tempos sem tempo contado. Dias em que a alma era atenta, ao que não se via no imediato. A infância.

Temos tanta pressa de crescer e quando acontece, ficamos cegos, porque apenas vemos o que os nossos olhos permitem alcançar. E isso é muito pouco.

Quando penso em felicidade, penso em coisas simples.

Como na mula do Gimbrinha. Uma mula que puxava uma carroça, que frequentemente atravessava as ruas da aldeia onde cresci e passei dias inteiros a brincar sem limites de tempo, ou horário marcado.

Percebi mais tarde, que o que tornava aquela dupla notória, não era tanto o senhor Gimbrinha, que levava a carroça, mas mais a mula, que o transportava no regresso a casa, sozinha, sem mentor.

Quando penso na verdadeira felicidade, penso em coisas simples.

Como nas mulheres de pés descalços que por vezes passavam em frente à minha porta, como se saíssem de uma máquina do tempo, em que ainda não se usavam sapatos e o frio não as enregelava, porque a ele, estavam resignadas.

Penso nas peixeiras que conduziam os carros de mão e vendiam o peixe porta a porta, pescado pelos maridos e por elas mesmas, atirando as redes ao Almonda e ao Tejo, sem que nenhum dos dois soubesse nadar.

Penso no melão vendido à beira da estrada. O melão apanhado por miúdos, graúdos e velhos da aldeia que precisavam de trabalho. Os braços vermelhos do roçar do mesmo, o regresso no fim do dia a casa, tantas vezes com o reboque ainda carregado, outras, em que o pai, a mãe ou o avô, passavam a noite na barraca a guardá-lo, para, com alguma sorte, o despachar no dia seguinte.

Ou então, penso na apanha do tomate, carregado pelo pessoal balde a balde, para encher cada caixa que no fim do dia, contabilizava o ganha-pão de cada um.

Velhos e novos sempre prontos a dar luta, resistentes sem nome, que se negavam a deixar os filhos passar fome, quando havia trabalho, mas não emprego.

Quando penso na felicidade, penso no meu pai, quando à noite ia desligar os motores da rega do milho ao campo, junto à reserva do Paúl do Boquilobo e eu pedia para ir com ele.

Íamos no Volkswagen azul, pelo campo da Golegã adentro, no silêncio da escuridão, apenas perturbado pelo canto dos grilos e a noite, parecia-me então, imaculada.

Quando penso na felicidade, penso numa mesa cheia, em que ninguém se entendia nem ouvia, mas os risos eram permanentes e verdadeiros. Porque a família estava reunida.

A verdadeira felicidade, esconde-se por trás de coisas simples.

Desengane-se quem a procura noutro lado.

Ela parece existir, mas é enganadora e inconstante.

A que deixa memórias, é a outra. A que se esconde por trás da sombra de um dia simples de verão, um olhar através da janela que encobre um dia de chuva, com a lareira da sala, acesa.

A que se esconde por trás de um abraço, de um olhar, de um simples piscar de olhos.

Porque tal como a vida, também a felicidade é transitória e passa velozmente. E deixa marcas.

 

 

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