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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Sex | 10.02.17

Mulheres

Há quem diga “mulher ao volante, perigo constante”. Não concordo nada com isso. Até porque, se há condução que não exerça perigo sobre os outros condutores, é, com toda a certeza, a das mulheres. Apenas não ligamos a pormenores (falo no meu caso específico). Pormenores como onde está o macaco ou o triângulo, por exemplo.

Adiante. Recordo dois pequenos episódios que se passaram com moi méme, bem elucidativos do conteúdo do parágrafo anterior.

Há uns anos atrás, tinha pouco mais que vinte e três anos e dava aulas em Alverca. Normalmente ia de  comboio, salvo os dias de interrupção letiva, em que o horário era mais flexível e permitia-me, de vez em quando, ir de carro.

Num desses dias, recordo que até nem era para levar o carro, mas atrasei-me e como levava a minha filha mais velha, que devia ter uns dois anitos, decidi não ir de comboio. E lá me pus a caminho pela A1 no meu singelo e nem por isso menos excecional, citroen ZX. A meio da viagem, percebi que o carro começou a perder velocidade, eu acelerava, mas não se passava nada, até que tive que encostar em plena auto-estrada. Pensei o que deveria fazer numa situação daquelas e a resposta era óbvia: ligar ao marido.

Ele atendeu e a primeira observação foi: “- Não te disse para ires de comboio?”. Fiquei irritada e desliguei a chamada. Sinceramente! O que uma mulher num momento de crise, tem que ouvir. Poucos segundos depois o telemóvel tocou.

- Já puseste o triângulo?

Triângulo???

- Não. – respondi.

- Então põe e depois liga para o número da assistência em viagem, que está no documento do seguro.

E assim fiz. Ou quase. Certifiquei-me que a Filipa não saia do carro e aventurei-me à procura do triângulo.

Procurei na mala do carro, procurei e nada.

Ok. Toca a ligar novamente ao marido.

- Não vejo o triângulo.

- Está ai. Ainda no fim de semana o vi.

- Estou-te a dizer que não está.

- Procura melhor.

Enfim. Decidi ligar para o número da assistência em viagem e só depois voltar à questão triângulo. Minutos depois, após a garantia de que o reboque chegaria, voltei à mala do carro à procura do dito.

Eis senão quando, para uma carrinha cheia de luzinhas atrás de mim, com todo o ar de que vinha resolver a coisa. Uns senhores saem e dirigem-se a mim.

- Bem, vocês são mesmo rápidos! – disse encantada, por a ajuda vir tão depressa.

- Nós somos da Brisa. O que se passa?

(lol!)

- Ah, ok. Estou à procura do triângulo.

- Está aqui. – apontou um dos homens.

What???

Olhei e realmente vi uma caixinha retangular num dos cantos da mala. Recordo que entre a vergonha e a irritação, pensei algo do tipo: Porque é que eu nunca oiço nada do que o homem lá de casa me diz???

- Como quem não quer ficar sem resposta ainda digo:

- Pois, mas isto é um retângulo e eu estava à procura dum triângulo!

E pronto. Posto isto, resta acrescentar que eu e a minha Pipinha (que batia palmas de excitação), chegámos à escola em grande estilo, sentadinhas no camião do reboque.

A outra situação passou-se talvez uns dois anos mais tarde, desta feita já eu era uma condutora muito mais experiente e ciente dos materiais de apoio ao condutor.

Estava a almoçar com uma colega no único restaurante do Pé da Pedreira ( nome da terrinha onde nesse ano dei aulas), comendo uma sopita, porque vencimento de professor, naquele lugar, não dava para muito mais, quando olhei para um rapaz ucraniano que ali almoçava todos dias e que ia a sair.

Comentei, a reinar, para a minha colega:

- Vês? Nós aqui na sopinha e o ucraniano todos os dias come o belo prato do dia!

- e rimos as duas.

O rapaz, que entretanto já tinha saido do restaurante, regressa e vejo-o avançar na minha direção. Entro subitamente em pânico e digo baixinho à minha acompanhante:

- Bolas! Ele ouviu o que eu disse e vem-me perguntar o que é que eu tenho a ver com o que ele come!!!!

Ele aproxima-se e diz-me:

- Tu tens furo.

Não percebi à primeira. Não sei se da pronúncia, se do medo.

- O quê?- pergunto.

- Tu tens furo. No carro.

Finalmente lá entendi, passado o nevoeiro do pânico.

Levantámo-nos e fomos as duas atrás dele. Tinha um pneu do meu rico citroen, em baixo.

- Tens macaca?- pergunta ele.

Olhámos uma para a outra e entre a vontade de rir e o não sabermos muito bem o que fazer, lá coloquei um ar sério e abri a mala. Vi lá o tal triângulo, e, num canto, um aspirador que já não recordo o que lá estava a fazer.

- Tenho um aspirador. Serve?

O rapaz, não entendendo a piada, dirigiu-se ao seu carro e trouxe o seu próprio macaca. E foi um querido. Trocou o pneu e a cena foi de filme. Ele todo transpirado enquanto nós as duas ali estávamos, de braços cruzados.

Falta contar que no dia seguinte, paguei o seu almoço, como forma de agradecimento.

Nos dias seguintes, sempre que nós as duas chegávamos, os nossos cafés já estavam pagos e o rapaz passou a rir-se muito para nós.

Chegámos à conclusão que o nosso costume de agradecer não devia ser-lhe familiar e a situação tornou-se estranha.

Posto isto, tivemos que começar a ir almoçar à aldeia vizinha.

Enfim. A vida é difícil.

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