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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Qui | 16.02.17

Momentos

Há dias em que o tempo desaparece, como por feitiço. Dias que deixam se ser unicamente dias, transvertem-se em momentos excecionais, que por sua vez dão lugar a horas de autêntica galhofeira. Ocasiões em que os relógios se retiram, simplesmente deixam de existir e tudo e nada é motor de riso, porque nos sentimos contentes, porque nos achamos entre amigos. Recordo uma noite, há alguns anos atrás, em que, depois do tão buscado local perfeito para jantar e confraternizar, eu e as minhas companheiras da foto lá achámos a custo um restaurantezinho pacífico e cheio de requinte. Como mulheres modernas e emancipadas (que traduzido que dizer meio alucinadas, embora só em situações especiais!), rimos durante todo o jantar e rimos e rimos.
Ríamos da alegria genuína que representava estarmos juntas, sem urgências, sem correrias, com “quase” todo o tempo do mundo. Uma das nossas melhores noites. Quis o destino que relembrássemos um tal MC, revolvendo o baú das memórias da nossa adolescência, e penetrássemos num túnel de histórias, confissões e lembranças que nos arrebatou o bom senso e arrematou decisivamente a seriedade da noite. Rimos até às lágrimas (conforme a foto!). Houve um momento em que um senhor simpático se ofereceu para nos tirar uma fotografia (já que sozinhas não conseguíamos) e ainda assim, as mesmas não pararam de correr, ficando o momento eternamente registado. Umas lacrimaram mais que outras, é claro. Porque uma habilidade que me caracteriza, é atirar “achas para a fogueira” e ficar momentaneamente séria, enquanto rejubilo por dentro, com o desnorteio alheio. E no entanto, interiormente, rio até à morte. Tenho a graça de viver momentos assim e agradeço todos os dias por isso. Após o jantar, demos um passeio pela cidade que estava em festa (tal como nós) e concluímos a noite com uma voltinha nas tradicionais cadeirinhas, nas quais na nossa adolescência nos sentávamos e sentíamos vagarosamente levantar voo na feira de S.Martinho, que na altura nos brindava com esses divertimentos. Recordo que assim que a cadeira alcançou o mínimo de altura, percebi o tamanho do meu erro, olhámos umas para as outras e entendi que o meu pensamento já não era só meu. E o meu pavor também não. Que fazia eu ali, mãe de duas filhas, naquela cadeira galopante céus afora? Perante a evidência da situação, pouco havia a fazer. Entrámos então num misto de pavor e euforia, que horas depois, já no aconchego do meu sono, ainda me sentia a subir e a descer e a sensação do vento gelado no meu rosto ainda não tinha desaparecido. Adrenalina pura. Compreendi uma vez mais que ao longo dos anos, vamos vivendo várias vidas e díspares personalidades e temperamentos. A personalidade arrojada e impaciente por aventuras ficou para trás, mas a corajosa que tem de aguentar até ao fim, a que só chega depois dos trinta, foi a que se aguentou…as que se aguentaram. E riram, apesar do medo, até ao último momento.
Essa ocasião recorda-me um outro dia, com estas mesmas amigas e um grupo de crianças, no jardim zoológico, em que, destemidamente, entrei no minúsculo teleférico que nos levaria num rico passeio com uma privilegiada vista sobre o zoo. Eu chamar-lhe-ia mais um pequeno cestinho de compras, agarrado por uns braços invisíveis que nos faziam oscilar pelo ar. Relembro que, assim que me capacitei da loucura que acabara de realizar, a minha vontade foi acocorar-me, fechar os olhos e aguardar que “aquilo” passa-se depressa. Mas depois olhei para as crianças por quem era responsável, desenhei um sorriso forçado no rosto e suportei corajosamente 20 “eternos” minutos que me pareceram horas. Pois é! A idade modifica-nos. Torna-nos mais receosos, mas sem dúvida mais resistentes. Porque compreendemos que existem objetivamente razões para ter medo. Mas também sabemos que fugir não é caminho a andar. Ficar é caminho. Enfrentar também. Apesar do medo.E mais tarde, se possível, ver tudo à luz que só a maturidade traz e sim…rir, se já disso for capaz.
Passamos por momentos difíceis ao longo desta nossa passagem, é uma certeza. Mas vivemos outros que de tão extraordinários, se tornam maiores, e sustentam a nossa vontade de viver e aproveitar cada instante intensamente, porque cada dia é único, e cada ápice experimentado em contentamento é irrepetível e singular.
“E no fim (...), são todos e cada um desses momentos que ficam”, que têm realmente algo de excecional, puro e verdadeiro…para contar.

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