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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Seg | 20.03.17

Medos de pai

Tentei falar contigo, mas não consegui, uma vez mais. Onde raio te meteste? Não sabes que preciso falar contigo? Que já não falamos há cinco horas e o meu coração começa a inquietar-se?

Eu sei. Eu sei que desde que tenho esta maldita doença estou sempre inquieto, sempre ansioso. Mas que culpa tenho eu se esta ansiedade me invade o peito? Que culpa tenho eu se cada vez que te ligo e tu não atendes, o meu cérebro inicia esta dança inquietante em que apenas te pressinto rodeada de perigos devastadores, rodeada de pessoas que te querem fazer mal?

Eu sei, minha filha. Eu sei que para ti não é fácil ser a única filha de um pai doente, viúvo, que não tem mais a quem recorrer, que não tem alguém que oiça os seus medos e inquietações.

Reconheço que não foi sempre assim. Que antes de ires para Coimbra e apesar da doença já se manifestar, eu era uma pessoa diferente. Mas agora tudo mudou. Estás longe e eu preciso constantemente de saber que estás bem.

Certamente é difícil para ti. Mas a vida tirou-me tanto, que deixei de confiar nela. Roubou-me a tua mãe quando tu tinhas apenas cinco anos e roubou-me agora a saúde, o que me fez irremediavelmente mergulhar nesta solidão sem remédio.

Lembras-te quando eras pequena e eu te contava histórias antes de adormeceres? Quando tinhas medo e eu te envolvia e acalmava nos meus braços com uma simples canção?

Hoje sou eu que tenho medo. Não de morrer, até porque o homem que eu fui já morreu há muito, mas sinto um medo insuportável por ti.

Medo que não consigas encontrar o teu caminho ou que te percas na tua travessia.

Mas entretanto tu ligas-me e mesmo sem te ver, consigo imaginar-te, com o teu sorriso travesso e simultaneamente tranquilo. Reconheço na tua voz a força do teu carácter e os meus olhos enchem-se de lágrimas. Percebo que já és uma mulher. Forte, determinada, convicta dos teus ideais. Que mais pode um pai querer e sonhar?

Enquanto oiço a tua voz tranquilizante, mantenho os olhos fechados e sabiamente, os mesmos conduzem-me a ti. Sinto o meu coração acalmar, os medos desaparecem pouco a pouco, subtilmente e durante as próximas horas, sei que estarei tranquilo.

Ironicamente, hoje és tu que me embalas, que me contas histórias para afastar o medo, que me abraças…, até vir o sono.

 

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