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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Qui | 16.02.17

Matilde

Casei, não tinha vinte anos. Mergulhei num destino incerto, sem margem para dúvidas ou incertezas. Tudo me parecia melhor do que continuar numa casa com duas divisões, em que cozinhava panelas de couves com batatas, quando as havia, dias e dias a fio, porque os dias eram duros e o trabalho serpenteava constantemente à minha volta. Costurava as calças dos meus irmãos mais velhos e remendava, vezes e vezes, as mesmas camisas.
Apenas a noite era abençoada. A calma e a paz que reinavam com o findar do dia, em que todos se silenciavam, no descanso do trabalho árduo, representavam para mim a plenitude. Dormir significava partilhar uma cama de ferro com um colchão de camisas de milho, onde me afundava impiedosamente, com os meus dois irmãos mais novos.
Devo dizer que a imagem dos dois enroscados em mim, com as suas respirações calmas a aquecer o frio das noites de inverno, constituem, ainda hoje, o leque das minhas memórias mais felizes. A ternura que nesse tempo me invadia quando os via dormir é a mesma que ainda hoje me invade o peito, quando a memória me repuxa os laços do passado.
Deixei a casa dos meus pais quando a Matilde tinha apenas oito anos e o Augusto onze. Criei-os como se fossem ambos meus filhos. Alimentei-os, lavei-os, adormeci-os, embalei-os…
O momento mais difícil da minha vida foi aquele em que os deixei para trás. Minha querida Matilde…foste um anjo que passou pelas nossas vidas, e hoje, depois de todas as vidas que já vivi, não há um único dia em que não pense em ti.
Fui filha, mãe, esposa, e hoje, ao ser avó, depois de décadas de vidas vividas sem olhar para trás, porque a pressa empurra-nos, olho para a minha pequena Francisca, filha do meu filho Manuel, e revejo-te.
É impressionante como cinquenta anos depois, a tua memória permanece viva em mim, e, mais impressionante ainda, Deus devolveu-te à minha vida, com a mesma subtiliza com que um dia te levou.
Eras uma menina linda, pele clara e olhos surpreendentemente azuis. Azul cristalino, herdado do nosso avô paterno, porque mais ninguém os tinha tão azuis, na nossa família. Corrias descalça por aquele pátio afora, e, quando me vias, o teu rosto iluminava-se e corrias na minha direção com o pequeno vestido manchado, remendado e gasto, de braços abertos, como se vislumbrasses o teu mundo. Era assim que nesses momentos eu me sentia…o teu pequeno mundo.
Tive três filhos que amei desde o primeiro sopro, desde o primeiro instante de vida, mas nunca experimentei com nenhum deles a sensação de rendição que tu me fazias sentir. Talvez porque a eles, minha doce Matilde, dei tudo e tudo lhes foi concedido sem grandes sacrifícios. Já tu, minha querida, querida irmã, tiveste tão pouco, e deste tanto.
Pouco depois da minha partida, rumo ao futuro que me aguardava, começou a tua doença. A vida no campo era difícil e sem mim para ficar contigo, passaste a ir de madrugada, enrolada naquela manta cinzenta e esburacada, para o campo. E enquanto os nossos pais trabalhavam pelo sustento dos filhos, sol a sol, tu por ali ficavas, à mercê do frio e do vento gelado, que não perdoavam os mais fracos.
Eram tempos difíceis e havia que trabalhar para alimentar os filhos. Mas como eu sempre pressenti, tu não eras deste mundo. Deus trouxe-te até nós para dar sentido às nossas pobres e desmerecidas vidas, mas, como tudo o que se empresta se devolve, assim nos foste arrebatada.
Não cheguei a tempo de te abraçar com vida, mas se há algo que seja verdadeiro nesta vida, é que existem mais coisas no Universo do que aquelas que os nossos olhos conseguem ver e explicar. Sonhei contigo a chamar-me, a pedir que fosse ter contigo, noites e noites a fio. Nos meus sonhos, abraçava-te, massajava os teus pés pequenos e gelados para os aquecer, adormecia-te, como fiz vezes e vezes sem conta. Mas depois acordava e não estavas. O António abraçava-me e eu chorava noites inteiras. Foi assim, noites e noites em branco, até que nasceu o Manuel.
A gravidez acalmou-me, apaziguou o meu coração e a minha dor. Pouco a pouco, o meu peito foi-se enchendo novamente de amor. Amor por aquele filho, que me restituiu a vontade de viver.
Ainda assim, permaneceste viva em mim…todos os dias. E quando a Francisca nasceu e a segurei pela primeira vez nos braços, nestes braços cansados e parcialmente adormecidos pelo tempo, o meu coração sentiu-se esmagado contra o peito. O som do seu primeiro choro transportou-me pelo corredor dos anos, numa viagem descendente, e percebi, Matilde, que eras tu que tinhas voltado para mim.
É um segredo só nosso, que partilhamos nos abraços e sorrisos que nos emergem quando estamos juntas. Reconheci-te. E embora não saibas, trouxeste-me de novo a esperança, que embora não perdida, ficou adormecida, porque a saudade…é o amor que fica!

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