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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Qui | 16.02.17

Momentos

Catarina Betes
Há dias em que o tempo desaparece, como por feitiço. Dias que deixam se ser unicamente dias, transvertem-se em momentos excecionais, que por sua vez dão lugar a horas de autêntica galhofeira. Ocasiões em que os relógios se retiram, simplesmente deixam de existir e tudo e nada é motor de riso, porque nos sentimos contentes, porque nos achamos entre amigos. Recordo uma noite, há alguns anos atrás, em que, depois do tão buscado local perfeito para jantar e confraternizar, eu e as (...)
Qui | 16.02.17

Matilde

Catarina Betes
Casei, não tinha vinte anos. Mergulhei num destino incerto, sem margem para dúvidas ou incertezas. Tudo me parecia melhor do que continuar numa casa com duas divisões, em que cozinhava panelas de couves com batatas, quando as havia, dias e dias a fio, porque os dias eram duros e o trabalho serpenteava constantemente à minha volta. Costurava as calças dos meus irmãos mais velhos e remendava, vezes e vezes, as mesmas camisas. Apenas a noite era abençoada. A calma e a paz que reinavam (...)
Dom | 12.02.17

Inês

Catarina Betes
À Paula, pelo amor e pela coragem.   Quando perdi a minha filha, sem saber, escolhi morrer. Embora tentasse agir todos os dias, dentro de uma normalidade impossível. Todos os dias me vesti, sentei-me à mesa, arrumei a casa e fingi viver. Mas da porta do meu quarto para dentro, só eu e tu, meu amor, sabemos o quanto eu queria morrer. Queria estar contigo e embalar-te. Queria abraçar-te e acalmar a dor. Queria que fosses novamente parte de mim, queria-te no meu ventre novamente, para (...)
Sab | 11.02.17

Saudade

Catarina Betes
A saudade tem nome? Há quem creia que sim. Que lhe outorgue rostos, lugares, momentos e ensejos. Saudade é pena, é ânsia, é lembrança, é um reencontro com a reminiscência, um sentir sem querer, um querer sem saber, se a saudade existe e é real, porque se quer, ou porque remembrar, é um modo de querer e viver. Revejo a saudade nos ramos da árvore antiga, que espreitam o primeiro andar do edifício antigo, cujas raízes golpeiam implacavelmente o chão. A força do vento faz (...)
Sab | 11.02.17

Memórias

Catarina Betes
Adorava chegar a casa dos meus avós maternos e encontrar a minha avó, sentada no quintal, num banquinho baixo de madeira, daqueles que só encontramos nas casas antigas, com o seu cabelo solto após o banho, que aos oitenta e muitos anos era ainda farto, comprido e encaracolado. Uma ondulação que resistiu a uma vida inteira de repuxamentos, a dias passados sem tempo para tratar do corpo nem da alma, em que o trabalho não dava tréguas nem descanso. Os seus caracóis eram agora (...)
Sex | 10.02.17

Regressar

Catarina Betes
"Pouco a pouco, a vida foi morrendo e nascendo novamente. Dura lição a nossa. Nascer e morrer, perder e ganhar, partir e chegar. (...) É estranho como hoje percebo que a vida se resume a sentimentos. Sentimentos maiores que a própria vida, que resistem ao poder da morte. O amor torna-nos sempre mais fortes. A mim, ajudou-me a despedir dos que amo, sim, que amo, porque o amor verdadeiro nunca morre. Ensinou-me a agradecer pelos netos que vi nascer, e é o amor que me tira o medo, nas (...)
Sex | 10.02.17

Mulheres

Catarina Betes
Há quem diga “mulher ao volante, perigo constante”. Não concordo nada com isso. Até porque, se há condução que não exerça perigo sobre os outros condutores, é, com toda a certeza, a das mulheres. Apenas não ligamos a pormenores (falo no meu caso específico). Pormenores como onde está o macaco ou o triângulo, por exemplo. Adiante. Recordo dois pequenos episódios que se passaram com moi méme, bem elucidativos do conteúdo do parágrafo anterior. Há uns anos atrás, (...)
Sex | 10.02.17

Mudança

Catarina Betes
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” (Fernando Teixeira de Andrade) Como saber que é tempo de mudar? Existe uma linha que separa uma existência passiva, de uma vida preenchida? Existe um timing perfeito em que tudo surge claro e transparente à (...)
Qui | 09.02.17

Ser presente

Catarina Betes
Estar ou ser presente é uma condição que faz parte de cada um de nós, desde muito cedo. Presente numa sala de aula, numa reunião, num treino, num jogo, numa viagem e por aí fora. Desde os primeiros anos de vida que nossa presença é solicitada, de modo mais, ou menos formal. Aprendemos gradualmente, a assimilar o paralelismo entre o ser e o dever. Ser presente é um modo de vida, uma escolha. Ser um pai ou mãe presente, um amigo, um irmão e por aí fora. Já estar presente, é um (...)
Qui | 09.02.17

Casa

Catarina Betes
  “Quem disse que eu me mudei? Não importa que a tenham demolido: A gente continua morando na velha casa em que nasceu.” (Mário Quintana) Quase todos conhecemos a sensação de regressar a casa. Voltar ao lar, ao espaço que nos compreende e conforta, quando o resto do mundo parece não compreender o que somos, fazemos ou sentimos. Pertencemos sempre a uma casa. Muito mais do que alguma casa jamais pertencerá a alguém. Pertencemos à casa dos nossos pais, que é sinónimo de um (...)