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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Dom | 12.02.17

Inês

À Paula, pelo amor e pela coragem.

 

Quando perdi a minha filha, sem saber, escolhi morrer.

Embora tentasse agir todos os dias, dentro de uma normalidade impossível. Todos os dias me vesti, sentei-me à mesa, arrumei a casa e fingi viver.

Mas da porta do meu quarto para dentro, só eu e tu, meu amor, sabemos o quanto eu queria morrer.

Queria estar contigo e embalar-te. Queria abraçar-te e acalmar a dor. Queria que fosses novamente parte de mim, queria-te no meu ventre novamente, para que tudo começasse de novo, eu te protegesse e desta vez, nada te pudesse levar.

Inês, meu amor!

Como posso sobreviver a esta dor? Não há caminho que a aquiete. Todos os caminhos me levam a ti, ao teu sorriso, à tua voz, aos teus cabelos, tão parecidos com os meus, às tuas mãos, ainda há tão pouco tempo, pequeninas e frágeis.

Nos primeiros tempos após a tua partida, a tua irmã e o teu pai pediam-me silenciosamente, que os deixasse entrar, que não os afastasse. Temiam que me fechasse e me perdesse naquela dor que me lacerava e rasgava por dentro.

Por mais que os amasse, não conseguia suportar.

Dizia-lhes que não queria esquecer, que tu continuavas em mim, culpava-os inconscientemente, por te deixarem ir.

Eu sei, não o devia fazer. E se calhar faço mal po

E o teu pai. O teu pai, meu amor, teria morrido mil vezes por ti, e temo que parte dele

tenha realmente morrido. Mas tem tentado ser tão forte! Por mim, pela Raquel.

Meu amor, que farei nesta vida sem ti?

Penso no que quererias que fizesse e reconheço que desejarias que vivesse. Prometo-te que vou tentar.

Olho para o que restou da nossa família apesar a dor e percebo que ainda existimos, ainda estamos juntos e precisamos uns dos outros para sobreviver.

Entretanto habituei-me a escrever-te, porque acredito que esse elo nos mantém unidas. Conto-te as histórias de todos os dias, digo-te o quanto sinto a tua falta, choro de saudades e esvazio a alma. Só assim me é possível viver todos estes dias, sem ti.

Meu amor, a Raquel cresceu tanto nestes dois anos! Tornou-se uma mulherzinha, tenta a todo o custo puxar-me para a vida e eu e o pai fazemos questão de a acompanhar nas suas atividades. Afinal, precisa de nós, embora pareça ter em si, todas as forças do mundo.

Eu sei que já não vives entre nós. Aceitei-o. Mas não sinto que tenhas partido para sempre.

Por isso falo contigo, por isso oiço os teus concelhos, essa vozinha dentro da minha cabeça que eu sei, vem de ti. Acredito que és tu quem me dá forças para viver cada dia. O teu amor não se perdeu, permanece vivo em cada um de nós e nós amamos-te como sempre, todos os dias, em todos os minutos.

Porque o amor não se extingue. Sobrevive à morte e eu acredito, do fundo do coração, que te mantém junto a mim, como quando te embalava junto ao peito, com a melodia doce, de uma canção.

 

 

 

 

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r não te deixar partir.

Mas não consigo conceber que já cá não estás, preciso de ti para continuar a viver. E então choro. E rezo. E blasfemo.

O teu quarto está igual, continua tudo como se ainda cá estivesses. A tua irmã de vez em quando veste algumas das tuas roupas e eu não me importo. Olho para ela tão nova, com uma dor tão grande às costas e os olhos enchem-se-me de lágrimas. Se eu pudesse, também a carregaria por ela.

 

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