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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Sex | 28.04.17

Dias

Há dias normais.

Dias que passam sem grande significância, em que cumprimos as tarefas habituais e o sol põe-se, com a mesma simplicidade com que nasceu.

Do nada, para as páginas em branco de um livro vazio.

Mas há ouros dias que trazem em si um fardo que nos custa suportar. Um peso de nostalgia, de memórias vividas, vidas interrompidas. Dias em que a nossa alma, a nossa vida, está longe daquele dia.

Estamos longe, habitamos temporariamente um outro lugar, que dentro de nós não foi ultrapassado. Porque o tempo da alma, é diferente do tempo do corpo.

Exteriormente, podemos aceitar a mudança, mas a nossa essência, mantém-se ligada às nossas origens e sem elas, ficaríamos perdidos. Duvido mesmo que tivéssemos chegado até aqui, embora tantas vezes o nosso maior desejo, fosse precisamente estar noutro lugar.

É difícil combater o poder da mente, quando a mesma insiste em nos transmover para as estradas de terra, de dias antigos. Fugimos delas porque nos deixam confusos, as memórias do passado misturam-se com as do presente e juntas, criam uma amálgama sentimentos e emoções, que ao invés de nos aquietar, nos confundem e tornam inquietos.

Somos quem somos porque as percorremos, mas sabemos que não existem caminhos para o passado, embora a sensação que esse carreiro nos traz, seja um bálsamo para a alma.

Por vezes questiono-me se os caminhos se percorrem apenas uma vez. E chego à conclusão que não.

Há caminhos que percorremos com os nossos próprios pés uma única vez, mas a nossa mente palmilhou-o vezes sem conta, desde o primeiro momento.

Retornamos aos lugares que nos marcaram, sempre que a nossa mente necessita compreender ou recordar o que nos levou a chegar até aqui. E então, recomeça a andada, que nos conduz ao princípio. De tudo e de nada.

O momento em que um sim ou um não, destinavam o caminho a seguir.

Compreender de onde vimos é essencial para o autoconhecimento. Perceber o que nos conduziu ao momento presente, com todos os tropeços, incertezas e pedras do caminho. E aceitar.

Mas sobretudo abranger, que todos os dias, se descerram novos caminhos à nossa frente.

Caminhos estreitos, caminhos largos, estradas movimentadas, ruas desertas e abandonadas.

E todos estão ao alcance de único um passo, à distância de um segundo olhar, ao arrojo e audácia do traço inseguro de um compasso.

Aceitar o passado é essencial, viver o presente é fundamental, mas crer que ” isto não acaba aqui!”, é a chave, que nos possibilita abrir todos os dias, aquela porta invisível, que por maior persuasão ou intenção dos outros, em fechá-la,

Abri-la…

Cabe unicamente a nós.

Porque cada vez que um novo ser chega a este mundo, recebe com o dom da Vida, o poder da Escolha. E eleger quem fará parte do nosso caminho, é mais que uma decisão.

É uma travessia.

Que se faz sozinho.

 

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Sex | 21.04.17

O tempo voa

O tempo voa.

E com ele, a sensação de intemporalidade, com a qual crescemos, rodeados de afetos e lugares comuns.

Nem todos crescemos com raízes. Alguns simplesmente medram e aprendem, sem atirar sementes à terra.

Outros…ai esses outros.

Crescem e vão deixando raízes que se pregam resolutamente ao chão.

Quisera eu tantas vezes não as ter. Porque quem não as tem, é desprendido e quem as detém, está irremediavelmente preso ao fio ténue da memória.

Ténue, porque por vezes parece tão estreito, que quase questionamos a sua existência. Mas o certo, é que nos momentos autênticos esse fio apresenta-se inquebrável, como se fizesse parte integrante de nós. Como se, no dia em que o mesmo se desfizer, também nós nos retiraremos deste mundo.

Somos como somos. Uns mais emotivos, outros mais afoitos, uns mais desligados, outros, sem saberem exatamente por quê, vitalmente conetados a sítios, pessoas, memórias e lugares.

Uns olham apenas e resolutamente, para a frente e para o caminho tentador, que o futuro exibe.

Outros, de forma indecifrável, vão avançando, mas a um passo mais lento e pensativo. Sensitivo. Porque reconhecem a beleza de apreciar o percurso e a relevância de se estar vivo. Como se todos aqueles passos tivessem já sido dados e detivessem a perceção de que o principal não é o destino, mas a alegria do caminho. E então, usufruem de cada passo dado, cada rumo, cada nova figura que se achega, cada sensação, cada lugar, porque têm presente a propósito de que nada é exclusivamente o que aparenta, tudo é mais, do que o perceptível aos nossos olhos.

O principal está disfarçado. E para se conhecer ou conquistar, é necessário tempo.

Tempo sem pressas e olhos abertos para o que existe, além do primeiro olhar.

Quando penso em felicidade, penso em tempos sem tempo contado. Dias em que a alma era atenta, ao que não se via no imediato. A infância.

Temos tanta pressa de crescer e quando acontece, ficamos cegos, porque apenas vemos o que os nossos olhos permitem alcançar. E isso é muito pouco.

Quando penso em felicidade, penso em coisas simples.

Como na mula do Gimbrinha. Uma mula que puxava uma carroça, que frequentemente atravessava as ruas da aldeia onde cresci e passei dias inteiros a brincar sem limites de tempo, ou horário marcado.

Percebi mais tarde, que o que tornava aquela dupla notória, não era tanto o senhor Gimbrinha, que levava a carroça, mas mais a mula, que o transportava no regresso a casa, sozinha, sem mentor.

Quando penso na verdadeira felicidade, penso em coisas simples.

Como nas mulheres de pés descalços que por vezes passavam em frente à minha porta, como se saíssem de uma máquina do tempo, em que ainda não se usavam sapatos e o frio não as enregelava, porque a ele, estavam resignadas.

Penso nas peixeiras que conduziam os carros de mão e vendiam o peixe porta a porta, pescado pelos maridos e por elas mesmas, atirando as redes ao Almonda e ao Tejo, sem que nenhum dos dois soubesse nadar.

Penso no melão vendido à beira da estrada. O melão apanhado por miúdos, graúdos e velhos da aldeia que precisavam de trabalho. Os braços vermelhos do roçar do mesmo, o regresso no fim do dia a casa, tantas vezes com o reboque ainda carregado, outras, em que o pai, a mãe ou o avô, passavam a noite na barraca a guardá-lo, para, com alguma sorte, o despachar no dia seguinte.

Ou então, penso na apanha do tomate, carregado pelo pessoal balde a balde, para encher cada caixa que no fim do dia, contabilizava o ganha-pão de cada um.

Velhos e novos sempre prontos a dar luta, resistentes sem nome, que se negavam a deixar os filhos passar fome, quando havia trabalho, mas não emprego.

Quando penso na felicidade, penso no meu pai, quando à noite ia desligar os motores da rega do milho ao campo, junto à reserva do Paúl do Boquilobo e eu pedia para ir com ele.

Íamos no Volkswagen azul, pelo campo da Golegã adentro, no silêncio da escuridão, apenas perturbado pelo canto dos grilos e a noite, parecia-me então, imaculada.

Quando penso na felicidade, penso numa mesa cheia, em que ninguém se entendia nem ouvia, mas os risos eram permanentes e verdadeiros. Porque a família estava reunida.

A verdadeira felicidade, esconde-se por trás de coisas simples.

Desengane-se quem a procura noutro lado.

Ela parece existir, mas é enganadora e inconstante.

A que deixa memórias, é a outra. A que se esconde por trás da sombra de um dia simples de verão, um olhar através da janela que encobre um dia de chuva, com a lareira da sala, acesa.

A que se esconde por trás de um abraço, de um olhar, de um simples piscar de olhos.

Porque tal como a vida, também a felicidade é transitória e passa velozmente. E deixa marcas.

 

 

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Seg | 03.04.17

Aniversário

Fez no passado dia 27 de março, vinte e um anos que fui mãe pela primeira vez.

Com 21 anos acabados de fazer, dei à luz de uma menina de olhos amendoados que desde o primeiro momento, pareciam querer engolir o mundo.

Nunca quis saber o sexo do bebé esperado, porque queria sentir a emoção do momento em que o seguraria nos braços pela primeira vez e ouviria as palavras: “é um menino” ou “é uma menina”… e deliciar-me nelas.

Porque uma certeza eu tinha. Seria exatamente o que eu queria!

Recordo quando passávamos noites sozinhas e eu queria que ela dormisse comigo (porque EU sentia medo). Ela, com pouco mais de dois anos e com umas “mãos cheias” de caracóis que lhe chegavam a meio das costas, dizia querer dormir no seu quarto.

Eu, chateada por não a convencer a dormir comigo, esperava que ela adormecesse, pegava-lhe no colo com todo o cuidado e levava-a para a minha cama.

Poucos minutos depois, ela acordava, olhava à volta, percebia onde estava, descia atabalhoadamente da cama (que tinha pouco menos da sua altura) e seguia para o seu quarto, com os caracóis a balançar, enquanto reclamava:

“- Esta não é a minha pama!”

E fechava a porta. E dormia. Às escuras!

No primeiro dia do Jardim de Infância, levou uma caneta e um caderno porque dizia que ia para a escola aprender.

Enquanto as outras crianças choravam, agarradas às suas mães, a minha sentou-se sozinha num banco sueco do hall, à espera que a chamassem. Eu ainda ali fiquei um bocadinho, naquela de mãe no 1º dia, a ver se ela olhava para mim. Quando me viu, fez uma careta e disse:

 “- Ainda aí estás? Vai-te embora!”

E eu recolhi o saco de mãe preocupada, já que dali não levava nada.

Escusado será dizer, que, ao fim do dia, quando lhe perguntei que tal tinha sido a escola, a resposta foi:

“- Uma chatice! Não aprendi nada!”

E assim tem sido. Independente, voluntariosa, dedicada às causas que acredita e extraordinariamente apaixonada. Pela família, pelos amigos, pela sua casa. E doce.

A esse propósito, recordo um dia em que, após um passeio de bicicleta, ao chegarmos a casa, olhou para mim com um sorriso alegre e os seus dois totós espetados, um de cada lado da cabeça e disse, com o ar mais natural do mundo, a propósito de nada:

“- És tão boazinha, mamã.”

Assim é esta minha filha.

Um misto de autonomia e doçura.

Alguém em que eu vejo uma parte de mim quase esquecida, mas que me recorda todos os dias,

Que na vida, as derrotas não contam,

Servem exclusivamente para nos mostrar,

Que a vida, independentemente da pedras no caminho,

É para ser vivida!

O resto, com todo o seu esplendor,

Não passam de acessórios, pobres imitações…,

Do que erradamente se julga,

Ser o amor.

 

 

 

 

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