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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Sab | 25.03.17

Quando somos novos

Quando somos mais novos, traçamos planos.

Planos pessoais e profissionais. Ou então não traçamos nada, mas sabemos que tudo irá correr bem. Porque temos tudo à nossa frente.

Dias e anos de espaços em branco por preencher, telas nuas e vazias à espera de serem pintadas, sem regras nem imposições.

Temos poucas certezas, mas acreditamos, porque faz parte da nossa cândida natureza humana, confiar que tudo correrá bem. Porque nos ensinaram, que todas as histórias carregam em si a possibilidade de um final feliz.

E então, a meio do maravilhamento interior que apenas a juventude concede, somos apanhados desprevenidos, pelas forças imprevisíveis do Universo. E repentinamente ficamos perdidos.

Permanecemos momentaneamente parados naquela estrada cinzenta, que não tem fim à vista e que de um momento para o outro, percebemos ter de percorrer sozinhos.

E esta é a nossa primeira grande aprendizagem. Que há caminhos que não podem ser feitos a dois.

Que não é apenas o nascimento e a morte que atravessamos sozinhos.

Porque durante os dias do nosso trilho, nascemos e morremos muitas vezes, sem que nos apercebamos disso.

Nascemos de cada vez que nos erguemos e não permitimos que as incertezas do caminho nos impeçam de o atravessar. Morremos, sempre que desistimos a meio, porque não temos a coragem de o enfrentar.

E quando a segunda acontece, passamos a viver uma espécie de morte, em vida. Porque ficámos a meio do caminho.

O espantoso da existência humana, é que temos forças em nós que desconhecemos, até ao dia em que nos propomos recomeçar. Até ao momento em que todas as nossas reservas de firmeza, ânimo e resistência caem por terra e o abatimento interior ameaça vencer a nossa determinação.

Mas se estivermos atentos, a última palavra, é sempre nossa.

Cabe-nos a nós levantar, sacudir a poeira dos dias macilentos, calçar novos sapatos e recomeçar a andar, desbravando novos trilhos.

Porque entre vários destinos a seguir,

o melhor,

É sempre o que escolhemos, não para estarmos sós,

Mas que elegemos sozinhos.

 

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Seg | 20.03.17

Medos de pai

Tentei falar contigo, mas não consegui, uma vez mais. Onde raio te meteste? Não sabes que preciso falar contigo? Que já não falamos há cinco horas e o meu coração começa a inquietar-se?

Eu sei. Eu sei que desde que tenho esta maldita doença estou sempre inquieto, sempre ansioso. Mas que culpa tenho eu se esta ansiedade me invade o peito? Que culpa tenho eu se cada vez que te ligo e tu não atendes, o meu cérebro inicia esta dança inquietante em que apenas te pressinto rodeada de perigos devastadores, rodeada de pessoas que te querem fazer mal?

Eu sei, minha filha. Eu sei que para ti não é fácil ser a única filha de um pai doente, viúvo, que não tem mais a quem recorrer, que não tem alguém que oiça os seus medos e inquietações.

Reconheço que não foi sempre assim. Que antes de ires para Coimbra e apesar da doença já se manifestar, eu era uma pessoa diferente. Mas agora tudo mudou. Estás longe e eu preciso constantemente de saber que estás bem.

Certamente é difícil para ti. Mas a vida tirou-me tanto, que deixei de confiar nela. Roubou-me a tua mãe quando tu tinhas apenas cinco anos e roubou-me agora a saúde, o que me fez irremediavelmente mergulhar nesta solidão sem remédio.

Lembras-te quando eras pequena e eu te contava histórias antes de adormeceres? Quando tinhas medo e eu te envolvia e acalmava nos meus braços com uma simples canção?

Hoje sou eu que tenho medo. Não de morrer, até porque o homem que eu fui já morreu há muito, mas sinto um medo insuportável por ti.

Medo que não consigas encontrar o teu caminho ou que te percas na tua travessia.

Mas entretanto tu ligas-me e mesmo sem te ver, consigo imaginar-te, com o teu sorriso travesso e simultaneamente tranquilo. Reconheço na tua voz a força do teu carácter e os meus olhos enchem-se de lágrimas. Percebo que já és uma mulher. Forte, determinada, convicta dos teus ideais. Que mais pode um pai querer e sonhar?

Enquanto oiço a tua voz tranquilizante, mantenho os olhos fechados e sabiamente, os mesmos conduzem-me a ti. Sinto o meu coração acalmar, os medos desaparecem pouco a pouco, subtilmente e durante as próximas horas, sei que estarei tranquilo.

Ironicamente, hoje és tu que me embalas, que me contas histórias para afastar o medo, que me abraças…, até vir o sono.

 

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Sex | 03.03.17

Feminismo

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Há uns anos atrás, a meio de uma apresentação de um dos meus livros, uma senhora levantou o braço (não levem em grande consideração, no máximo deviam estar naquele stand, vinte pessoas!) e perguntou-me se eu era feminista. Fiquei parada durante uns segundos, como se pela primeira vez na minha vida, levantasse a mim mesma a questão. Serei??

A amiga que me acompanhava esboçou um sorriso, até porque me conhece como ninguém e tenho a certeza que o seu pensamento foi:

- Sim!!!

Mas curiosamente, fiquei momentaneamente apática. Porque percebi que quando a pergunta foi feita, deixou no ar a dúvida se a minha interlocutora se referia ao feminismo ou ao femismo.

Embora as palavras tenham semelhanças, os significados são díspares. O feminismo é um movimento social de "quebra" da hierarquização dos sexos, do sexismo e do machismo, reivindicando igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Já o femismo, pode ser considerado o sinónimo do machismo (ao mesmo tempo que é o seu oposto), pois trata-se de uma ideologia de superioridade da mulher sobre o homem. O femismo, assim como o machismo, prega a construção de uma sociedade hierarquizada a partir do género sexual, baseada num regime matriarcal. E este não me diz nada, nem me seduz.

Porque nunca gostei de fundamentalismos. Numa me identifiquei com pensamentos fechados, em que o meio termo, não existe. Gosto do preto e do branco, mas também aprecio e reconheço a importância do cinzento.

E então finalmente respondi:

- Sim, sou.

Porque cada um é nada mais nada menos que o reflexo de tudo o que viveu, aprendeu e experienciou. O feminismo, como muitos pensam erroneamente, não é um movimento sexista, ou seja, que defende a figura do feminino sobre o masculino, mas sim uma luta pela igualdade entre ambos os géneros.

No momento em que respondi, veio-me à memória uma outra pergunta que um jovem numa escola me fez:

- Porque escreve só sobre mulheres?

Recordei a resposta:

- Não escrevo só sobre as mulheres, mas escrevo sobretudo para as mulheres. Porque elas são o berço da vida.

E é isto.

Se ser feminista é entender e valorizar papel da mulher na sociedade e lutar pela igualdade entre mulheres e homens em todos os setores, sim, sou.

Se ser feminista é acreditar na inserção da mulher na sociedade, dando voz e expressão às suas necessidades, sim, sou.

Se ser feminista é crer que a mulher não “tem que” nada, se não quiser, sim, sou.

Se ser feminista é defender a humanidade das mulheres, sim, sou.

E isso não seria nada de mais, não fosse este um mundo onde tanta gente luta diariamente por valores contrários.

Onde representantes políticos e não só, em pleno séc.XXI, ousam diminuir o papel da mulher e consideram-se plenos desse direito.

E isso dá que pensar.

A importância das palavras, e o impacto que estas têm na criação de uma consciência coletiva mais justa, equilibrada e digna para todos, não pode ser menosprezada.

São as vozes machistas que nos levam por vezes a crer, que afinal a inteligência, a força e a aparente superioridade física não são apanágio dos poderosos.

Às vezes basta ser um macaco ágil.

E trepar até ao ramo mais alto.