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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Sex | 10.02.17

Mudança

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.” (Fernando Teixeira de Andrade)

Como saber que é tempo de mudar? Existe uma linha que separa uma existência passiva, de uma vida preenchida? Existe um timing perfeito em que tudo surge claro e transparente à luz dos nossos olhos e percebemos que a mesma é impreterível?
Existirá o tal instante mágico que, teoricamente, Deus nos concede cada dia?
O momento em que é possível mudar tudo que nos deixa infelizes, em que um sim ou um não pode mudar toda a nossa existência?
Ou acordamos num dia, olhamos à nossa volta e percebemos que já não somos nós?
É difícil aceitar que a mudança é inevitável. Porque o seu maior inimigo é o conformismo. Porque é mais fácil repetir todos os dias os mesmos passos, num caminho que já palmilhamos de olhos vedados, que eleger alterar o rumo e aprender novamente a andar.
É aliciante manter a zona de conforto intocável. Afastar o impulso de recomeçar, convencendo-nos de que já não há tempo, no tempo, para nós.
Porque o período de mudar tem termo. Deixamo-nos convencer que aceitar é fundamental e passamos pelos anos, a crer que o que temos, nos basta.
Embora tudo à nossa volta nos revele incessantemente que a vida é rara e tão breve. Sabemos que cada momento é único, mas preferimos repetir os mesmos gestos, as mesmas tarefas, as mesmas palavras, que tantas vezes já não repercutem nada, ao invés de procurar novas razões para ser feliz.
O que será mais significativo?
Viver cada dia rodeado por uma capa protetora que nos resguarde de emoções desconhecidas, ou aceitar que o que fazemos ou somos já não é importante?
Não será o propósito da vida aceitar o que a mesma oferece, ser grato, ansiar apenas pelo que se conhece e que sabemos ser seguro?
Ou será que a vida nos propõe algo mais audaz?
Viver, sem medos, culpas ou constrangimentos. Viver cada dia com o entusiasmo natural de quem vê o mundo pela primeira vez e o aprecia, na sua essência, respeitando o dom da vida e dando-lhe um novo sentido, todos os dias.
Viver num círculo fechado, ou olhar o mundo e reconhecer que fazemos parte do mesmo, reivindicando o nosso papel como agentes de mudança?
Seremos apenas aquele que sobrevive, fintando aqui e acolá, ou enfrentaremos a nossa dança, nesta roda?
Andamos ou paramos?
Se pararmos, não corremos riscos de pisar ou atropelar alguém.
Mas se avançarmos, quem sabe a página em branco que nos está destinada escrever?
Acarreta riscos, seguramente.
Mas traz também a possibilidade de viver novos dias, novas vidas, novos desafios, novos amores.
E que raio andamos nós, afinal, a fazer neste mundo, se não a aprender a viver?
Que tipo de aprendizagem existirá se ficarmos aquém de nós mesmos?
Será esse o nosso propósito?Aprender a morrer?
Eu escolheria a vida.
Porque nenhum dia é igual a outro.
E porque cada novo amanhecer encerra uma benção escondida, uma benção que só existirá nesse dia e que não pode ser guardada. Se não a vivermos ou aproveitarmos, perde-se irremediavelmente.
Estamos em constante processo de mudança. Talvez por isso a resposta às nossas questões esteja nos pequenos milagres de cada dia, nos pequenos pormenores e detalhes.
Afinal, quem não é fiel às pequenas coisas, jamais será nas grandes.

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Qui | 09.02.17

Ser presente

Estar ou ser presente é uma condição que faz parte de cada um de nós, desde muito cedo. Presente numa sala de aula, numa reunião, num treino, num jogo, numa viagem e por aí fora. Desde os primeiros anos de vida que nossa presença é solicitada, de modo mais, ou menos formal.
Aprendemos gradualmente, a assimilar o paralelismo entre o ser e o dever.
Ser presente é um modo de vida, uma escolha. Ser um pai ou mãe presente, um amigo, um irmão e por aí fora.
Já estar presente, é um conceito totalmente diferente. Podemos estar e no entanto manter um distanciamento emocional entre o momento vivido e nós próprios.
Ser ou estar presente, não se reduz ao campo pessoal. Ser um profissional presente ultrapassa o desempenho de uma tarefa. Relaciona-se sim, com a entrega integral de nós mesmos, ao que fazemos. Curiosamente, há quem esteja ausente nestes dois campos durante toda uma vida, sem dar por isso. Porque estar, não é ser.
Um professor presente não despeja apenas matéria, por mais que a simplifique, mas coloca-se no lugar dos alunos. Sai de si mesmo, revê-se a si próprio naquela mesma idade e procura compreender o que não está à vista.
Um bom médico não é apenas aquele faz um diagnóstico correto. O médico que o paciente anseia e procura, é aquele que, por pior que seja o diagnóstico, tem a coragem de o olhar nos olhos enquanto enquanto fala, e coneta-se com ele. Mesmo que dois minutos depois, a porta do consultório se feche e o assunto se encerre. O importante é que, no momento em que o paciente precise, o médico esteja efetivamente presente.
Não é um aprendizado fácil, exige uma entrega de nós mesmos, que nem sempre estamos dispostos a dar. Mas o certo é que quando olharmos para trás e fizermos o replay do que fomos neste lugar, são os momentos em que estivemos realmente presentes, que contam e têm peso. Todos os outros se esfumam, porque não os vivemos verdadeiramente. Apenas passámos suavemente por eles e o que fica é tão breve, como o bater suave e leve, das asas de um pássaro.
Ser presente é uma decisão. Viver cada momento verdadeiramente, com tudo o que de bom e mau, a vida acarreta.
Ser presente é uma escolha.
Viver a vida,... ou apenas passar por ela.

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Qui | 09.02.17

Casa

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“Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu.” (Mário Quintana)

Quase todos conhecemos a sensação de regressar a casa. Voltar ao lar, ao espaço que nos compreende e conforta, quando o resto do mundo parece não compreender o que somos, fazemos ou sentimos.
Pertencemos sempre a uma casa. Muito mais do que alguma casa jamais pertencerá a alguém. Pertencemos à casa dos nossos pais, que é sinónimo de um afeto sem nome ou tamanho. Pertencemos à casa em que fomos criados, como a nossa alma pertence ao nosso corpo.
Casa. Uma palavra tão simples, mas que suporta em si um conjunto infinito de conceitos e emoções, impercetíveis aos olhos dos pouco atentos, dos que apenas olham, mas não veem.
Porque casa é aconchego, família, refúgio e segurança.
Mais tarde, construímos a nossa própria casa, mas sentimos que a anterior ainda nos pertence. Ou que ainda lhe pertencemos.
Até que um dia observamos, que já pensamos na primeira, como “a casa dos nossos pais” e assim permanece, até que a mesma deixa de existir.
Temos a nossa, mas a outra, aquela à qual estão visceralmente atadas as nossas raízes, já não existe. Ou existe, mas já não é a mesma, porque os que amávamos, já não estão.
E então tentamos extinguir da memória dos nossos dias, o reflexo e o espelho daquele sítio que expunha genuinamente, o “outro” de nós mesmos.
O que era protegido, ao inverso de proteger, que era acarinhado, em vez de acarinhar, que era amado, em vez de desmedidamente amar. Porque enquanto “temos”, não compreendemos o real valor, que representa “ter”.
Ter uma mãe, seja em que idade for, que nos deite a cabeça no colo e acaricie o rosto e nos afague os cabelos, é um luxo que só percebemos, quando perdemos. Maior que todas as ostentações do Universo, porque cada carícia é mensageira do único amor verdadeiro e insubstituível.
Cerrar os olhos e sentir os dedos da mão daquela mãe que nos ama todos os dias e em todas as horas, é o mais simples e autêntico caminho de regresso a casa.
Entretanto, quando esse amor deixa de existir, ocorre muitas vezes sermos nós os pais e as mães que acolhem e acarinham. E então a dor de já não ter, atenua-se, porque o amor permanece, qual saga de infindos capítulos. E então, deixamos de ser esperados, para esperar.
Regressar é sempre uma emoção, tal como pertencer a um lugar, será sempre superior a qualquer vontade ou pretensão. Porque somos seres de comoções, atribuímos aos lugares as memórias que deles armazenamos e a nossa existência modifica-se, quando num lugar somos felizes.
Por isso, há espaços que nos transmitem sentimentos alegres e outros que transferem uma infinita inquietação. Porque neles deixamos parte de nós, uma fração da nossa alma e do nosso espírito.
Porque uma morada, será sempre mais que simples paredes, janelas, portas ou arcadas. É lá que sonhamos, rimos e choramos. As nossas emoções e alvoroços fixam-se às paredes e as nossas preces trauteiam baixinho, ao longo dos anos.
O amor não se extingue. Pernoita inscrito na nossa memória, assim como nas paredes das casas onde fomos felizes e deixámos o traço inconfundível, do afeto. Por isso uma casa será sempre muito mais que um edifício. Será perpetuamente o lugar onde os sons se amalgamam. As vozes antigas misturam-se com as vozes novas e juntas, deixam no ar sons inconfundíveis, que só um verdadeiro lar, poderá no tempo, e na memória, eternizar. Podemos percorrer o mundo inteiro à procura do que precisamos, mas basta voltar a casa, para encontrá-lo.

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