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O Caminho das Palavras

O Caminho das Palavras

Seg | 20.02.17

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(...)Encetei a minha primeira jornada a sós, mas levei comigo a ternura do teu abraço, a sombra do teu sorriso, que se manteve perseverantemente ao meu lado, que me segurou, quando os meus joelhos fraquejaram e o meu corpo protestou, quer pela dor do cansaço, quer pela insignificância e vazio daquele novo caminho, que não era nada sem ti. (...) Ri de vontade e chorei de saudade. De mim, de ti, dos caminhos percorridos. Mas continuei, passo a passo, dia após dia, e cheguei aqui. Mas nunca, nunca mais, cheguei até ti. (...) Vivi amores, várias vidas depois de ti, percorri incontáveis caminhos, mas nunca te esqueci. Hoje soube que partiste e só agora percebi. Só hoje entendi que sempre esperei por ti, por um último sorriso, um último abraço, um olhar demorado, um adeus encantado. Só hoje percebi, que nunca me despedi de ti. 

(A razão do que Somos)

Seg | 20.02.17

Não se Nasce Mulher por Acaso

M de mulher, M de mãe, M de matriarca, M de magnífica, M de mil e uma palavras que classificam as mulheres que fazem ou fizeram parte da minha vida.
Mulheres que nascem marcadas.
Marcadas pela força, pela coragem com que vivem as suas vidas, muitas vezes malditas, outras abençoadas. Mulheres que não nasceram mulheres por acaso. Mas com um destino traçado.
Mulheres que vivem, trabalham, lutam, parem, sempre com gotas de suor invisíveis que escorrem pelo rosto, com lágrimas silenciosas de sacrifício, sorrisos carinhosos que guardam no colo, para os filhos.
(...)O espírito forte que as empurra para a frente, quando o destino se revela cruel e as forças ameaçam ruir. Porque às mulheres cabe o papel mais difícil, o de carregar nas mãos sentimentos que deviam estar dentro do peito.
Ser mulher é rir, é chorar, é nunca perder a esperança, nunca perder a coragem.
E quando a última me falta, recupero-a com a lembrança das mulheres magníficas que me criaram, que sobreviveram num mundo liderado por homens, mas alimentado por mulheres

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Sab | 18.02.17

Quando me recordares

Quando me recordares, pensa em mim como eu era. Não te relembres de mim já cansada, de olhos cavados e sem brilho, mas de olhar vivo e sorriso arrebatado.

Quando me recordares, esquece os meus dias de desânimo. Recorda apenas a mulher que enfrentava os dragões desta vida, que ousava arrojar, a destemida que corria atrás dos sonhos impossíveis de alcançar.

Quando me recordares, pensa nos momentos em que te abracei, quando as minhas mãos seguravam as tuas, que de tão quentes abrasavam. Pensa em mim de rosto afogueado, como se transportasse no peito a alegria do mundo, como se o vento me tivesse sempre acabado de despentear, como se o dia nunca tivesse fim, como se a noite jamais tivesse lugar.

Quando me recordares, revive o meu sorriso a cada reencontro com o mar, o cheiro do sal no meu cabelo, a areia, os sons de um dia de verão a findar.

Quando me recordares, fá-lo como quem olha o céu num fim de tarde normal, observa as aves que cantam e rasteiam as dunas e o mar, cerra os olhos. Confia, aí hei-de estar.

Quando me recordares, não me recordes com medo. Lembra-te de mim quando troçava dos meus próprios temores, quando nada me arrancava a vontade de combater, a Maria sem Medos, que na minha juventude ousou viver.

Quando me recordares, recorda-me com um dos meus filhos nos braços, num dia simples, sem nada de especial. Guarda esse meu gesto, esse meu olhar.

Nele estão guardados os mais secretos segredos do mundo, a magia insubstituível, que encerra, o deslumbramento de Amar!

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Qui | 16.02.17

Momentos

Há dias em que o tempo desaparece, como por feitiço. Dias que deixam se ser unicamente dias, transvertem-se em momentos excecionais, que por sua vez dão lugar a horas de autêntica galhofeira. Ocasiões em que os relógios se retiram, simplesmente deixam de existir e tudo e nada é motor de riso, porque nos sentimos contentes, porque nos achamos entre amigos. Recordo uma noite, há alguns anos atrás, em que, depois do tão buscado local perfeito para jantar e confraternizar, eu e as minhas companheiras da foto lá achámos a custo um restaurantezinho pacífico e cheio de requinte. Como mulheres modernas e emancipadas (que traduzido que dizer meio alucinadas, embora só em situações especiais!), rimos durante todo o jantar e rimos e rimos.
Ríamos da alegria genuína que representava estarmos juntas, sem urgências, sem correrias, com “quase” todo o tempo do mundo. Uma das nossas melhores noites. Quis o destino que relembrássemos um tal MC, revolvendo o baú das memórias da nossa adolescência, e penetrássemos num túnel de histórias, confissões e lembranças que nos arrebatou o bom senso e arrematou decisivamente a seriedade da noite. Rimos até às lágrimas (conforme a foto!). Houve um momento em que um senhor simpático se ofereceu para nos tirar uma fotografia (já que sozinhas não conseguíamos) e ainda assim, as mesmas não pararam de correr, ficando o momento eternamente registado. Umas lacrimaram mais que outras, é claro. Porque uma habilidade que me caracteriza, é atirar “achas para a fogueira” e ficar momentaneamente séria, enquanto rejubilo por dentro, com o desnorteio alheio. E no entanto, interiormente, rio até à morte. Tenho a graça de viver momentos assim e agradeço todos os dias por isso. Após o jantar, demos um passeio pela cidade que estava em festa (tal como nós) e concluímos a noite com uma voltinha nas tradicionais cadeirinhas, nas quais na nossa adolescência nos sentávamos e sentíamos vagarosamente levantar voo na feira de S.Martinho, que na altura nos brindava com esses divertimentos. Recordo que assim que a cadeira alcançou o mínimo de altura, percebi o tamanho do meu erro, olhámos umas para as outras e entendi que o meu pensamento já não era só meu. E o meu pavor também não. Que fazia eu ali, mãe de duas filhas, naquela cadeira galopante céus afora? Perante a evidência da situação, pouco havia a fazer. Entrámos então num misto de pavor e euforia, que horas depois, já no aconchego do meu sono, ainda me sentia a subir e a descer e a sensação do vento gelado no meu rosto ainda não tinha desaparecido. Adrenalina pura. Compreendi uma vez mais que ao longo dos anos, vamos vivendo várias vidas e díspares personalidades e temperamentos. A personalidade arrojada e impaciente por aventuras ficou para trás, mas a corajosa que tem de aguentar até ao fim, a que só chega depois dos trinta, foi a que se aguentou…as que se aguentaram. E riram, apesar do medo, até ao último momento.
Essa ocasião recorda-me um outro dia, com estas mesmas amigas e um grupo de crianças, no jardim zoológico, em que, destemidamente, entrei no minúsculo teleférico que nos levaria num rico passeio com uma privilegiada vista sobre o zoo. Eu chamar-lhe-ia mais um pequeno cestinho de compras, agarrado por uns braços invisíveis que nos faziam oscilar pelo ar. Relembro que, assim que me capacitei da loucura que acabara de realizar, a minha vontade foi acocorar-me, fechar os olhos e aguardar que “aquilo” passa-se depressa. Mas depois olhei para as crianças por quem era responsável, desenhei um sorriso forçado no rosto e suportei corajosamente 20 “eternos” minutos que me pareceram horas. Pois é! A idade modifica-nos. Torna-nos mais receosos, mas sem dúvida mais resistentes. Porque compreendemos que existem objetivamente razões para ter medo. Mas também sabemos que fugir não é caminho a andar. Ficar é caminho. Enfrentar também. Apesar do medo.E mais tarde, se possível, ver tudo à luz que só a maturidade traz e sim…rir, se já disso for capaz.
Passamos por momentos difíceis ao longo desta nossa passagem, é uma certeza. Mas vivemos outros que de tão extraordinários, se tornam maiores, e sustentam a nossa vontade de viver e aproveitar cada instante intensamente, porque cada dia é único, e cada ápice experimentado em contentamento é irrepetível e singular.
“E no fim (...), são todos e cada um desses momentos que ficam”, que têm realmente algo de excecional, puro e verdadeiro…para contar.

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Qui | 16.02.17

Matilde

Casei, não tinha vinte anos. Mergulhei num destino incerto, sem margem para dúvidas ou incertezas. Tudo me parecia melhor do que continuar numa casa com duas divisões, em que cozinhava panelas de couves com batatas, quando as havia, dias e dias a fio, porque os dias eram duros e o trabalho serpenteava constantemente à minha volta. Costurava as calças dos meus irmãos mais velhos e remendava, vezes e vezes, as mesmas camisas.
Apenas a noite era abençoada. A calma e a paz que reinavam com o findar do dia, em que todos se silenciavam, no descanso do trabalho árduo, representavam para mim a plenitude. Dormir significava partilhar uma cama de ferro com um colchão de camisas de milho, onde me afundava impiedosamente, com os meus dois irmãos mais novos.
Devo dizer que a imagem dos dois enroscados em mim, com as suas respirações calmas a aquecer o frio das noites de inverno, constituem, ainda hoje, o leque das minhas memórias mais felizes. A ternura que nesse tempo me invadia quando os via dormir é a mesma que ainda hoje me invade o peito, quando a memória me repuxa os laços do passado.
Deixei a casa dos meus pais quando a Matilde tinha apenas oito anos e o Augusto onze. Criei-os como se fossem ambos meus filhos. Alimentei-os, lavei-os, adormeci-os, embalei-os…
O momento mais difícil da minha vida foi aquele em que os deixei para trás. Minha querida Matilde…foste um anjo que passou pelas nossas vidas, e hoje, depois de todas as vidas que já vivi, não há um único dia em que não pense em ti.
Fui filha, mãe, esposa, e hoje, ao ser avó, depois de décadas de vidas vividas sem olhar para trás, porque a pressa empurra-nos, olho para a minha pequena Francisca, filha do meu filho Manuel, e revejo-te.
É impressionante como cinquenta anos depois, a tua memória permanece viva em mim, e, mais impressionante ainda, Deus devolveu-te à minha vida, com a mesma subtiliza com que um dia te levou.
Eras uma menina linda, pele clara e olhos surpreendentemente azuis. Azul cristalino, herdado do nosso avô paterno, porque mais ninguém os tinha tão azuis, na nossa família. Corrias descalça por aquele pátio afora, e, quando me vias, o teu rosto iluminava-se e corrias na minha direção com o pequeno vestido manchado, remendado e gasto, de braços abertos, como se vislumbrasses o teu mundo. Era assim que nesses momentos eu me sentia…o teu pequeno mundo.
Tive três filhos que amei desde o primeiro sopro, desde o primeiro instante de vida, mas nunca experimentei com nenhum deles a sensação de rendição que tu me fazias sentir. Talvez porque a eles, minha doce Matilde, dei tudo e tudo lhes foi concedido sem grandes sacrifícios. Já tu, minha querida, querida irmã, tiveste tão pouco, e deste tanto.
Pouco depois da minha partida, rumo ao futuro que me aguardava, começou a tua doença. A vida no campo era difícil e sem mim para ficar contigo, passaste a ir de madrugada, enrolada naquela manta cinzenta e esburacada, para o campo. E enquanto os nossos pais trabalhavam pelo sustento dos filhos, sol a sol, tu por ali ficavas, à mercê do frio e do vento gelado, que não perdoavam os mais fracos.
Eram tempos difíceis e havia que trabalhar para alimentar os filhos. Mas como eu sempre pressenti, tu não eras deste mundo. Deus trouxe-te até nós para dar sentido às nossas pobres e desmerecidas vidas, mas, como tudo o que se empresta se devolve, assim nos foste arrebatada.
Não cheguei a tempo de te abraçar com vida, mas se há algo que seja verdadeiro nesta vida, é que existem mais coisas no Universo do que aquelas que os nossos olhos conseguem ver e explicar. Sonhei contigo a chamar-me, a pedir que fosse ter contigo, noites e noites a fio. Nos meus sonhos, abraçava-te, massajava os teus pés pequenos e gelados para os aquecer, adormecia-te, como fiz vezes e vezes sem conta. Mas depois acordava e não estavas. O António abraçava-me e eu chorava noites inteiras. Foi assim, noites e noites em branco, até que nasceu o Manuel.
A gravidez acalmou-me, apaziguou o meu coração e a minha dor. Pouco a pouco, o meu peito foi-se enchendo novamente de amor. Amor por aquele filho, que me restituiu a vontade de viver.
Ainda assim, permaneceste viva em mim…todos os dias. E quando a Francisca nasceu e a segurei pela primeira vez nos braços, nestes braços cansados e parcialmente adormecidos pelo tempo, o meu coração sentiu-se esmagado contra o peito. O som do seu primeiro choro transportou-me pelo corredor dos anos, numa viagem descendente, e percebi, Matilde, que eras tu que tinhas voltado para mim.
É um segredo só nosso, que partilhamos nos abraços e sorrisos que nos emergem quando estamos juntas. Reconheci-te. E embora não saibas, trouxeste-me de novo a esperança, que embora não perdida, ficou adormecida, porque a saudade…é o amor que fica!

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Dom | 12.02.17

Inês

À Paula, pelo amor e pela coragem.

 

Quando perdi a minha filha, sem saber, escolhi morrer.

Embora tentasse agir todos os dias, dentro de uma normalidade impossível. Todos os dias me vesti, sentei-me à mesa, arrumei a casa e fingi viver.

Mas da porta do meu quarto para dentro, só eu e tu, meu amor, sabemos o quanto eu queria morrer.

Queria estar contigo e embalar-te. Queria abraçar-te e acalmar a dor. Queria que fosses novamente parte de mim, queria-te no meu ventre novamente, para que tudo começasse de novo, eu te protegesse e desta vez, nada te pudesse levar.

Inês, meu amor!

Como posso sobreviver a esta dor? Não há caminho que a aquiete. Todos os caminhos me levam a ti, ao teu sorriso, à tua voz, aos teus cabelos, tão parecidos com os meus, às tuas mãos, ainda há tão pouco tempo, pequeninas e frágeis.

Nos primeiros tempos após a tua partida, a tua irmã e o teu pai pediam-me silenciosamente, que os deixasse entrar, que não os afastasse. Temiam que me fechasse e me perdesse naquela dor que me lacerava e rasgava por dentro.

Por mais que os amasse, não conseguia suportar.

Dizia-lhes que não queria esquecer, que tu continuavas em mim, culpava-os inconscientemente, por te deixarem ir.

Eu sei, não o devia fazer. E se calhar faço mal po

E o teu pai. O teu pai, meu amor, teria morrido mil vezes por ti, e temo que parte dele

tenha realmente morrido. Mas tem tentado ser tão forte! Por mim, pela Raquel.

Meu amor, que farei nesta vida sem ti?

Penso no que quererias que fizesse e reconheço que desejarias que vivesse. Prometo-te que vou tentar.

Olho para o que restou da nossa família apesar a dor e percebo que ainda existimos, ainda estamos juntos e precisamos uns dos outros para sobreviver.

Entretanto habituei-me a escrever-te, porque acredito que esse elo nos mantém unidas. Conto-te as histórias de todos os dias, digo-te o quanto sinto a tua falta, choro de saudades e esvazio a alma. Só assim me é possível viver todos estes dias, sem ti.

Meu amor, a Raquel cresceu tanto nestes dois anos! Tornou-se uma mulherzinha, tenta a todo o custo puxar-me para a vida e eu e o pai fazemos questão de a acompanhar nas suas atividades. Afinal, precisa de nós, embora pareça ter em si, todas as forças do mundo.

Eu sei que já não vives entre nós. Aceitei-o. Mas não sinto que tenhas partido para sempre.

Por isso falo contigo, por isso oiço os teus concelhos, essa vozinha dentro da minha cabeça que eu sei, vem de ti. Acredito que és tu quem me dá forças para viver cada dia. O teu amor não se perdeu, permanece vivo em cada um de nós e nós amamos-te como sempre, todos os dias, em todos os minutos.

Porque o amor não se extingue. Sobrevive à morte e eu acredito, do fundo do coração, que te mantém junto a mim, como quando te embalava junto ao peito, com a melodia doce, de uma canção.

 

 

 

 

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r não te deixar partir.

Mas não consigo conceber que já cá não estás, preciso de ti para continuar a viver. E então choro. E rezo. E blasfemo.

O teu quarto está igual, continua tudo como se ainda cá estivesses. A tua irmã de vez em quando veste algumas das tuas roupas e eu não me importo. Olho para ela tão nova, com uma dor tão grande às costas e os olhos enchem-se-me de lágrimas. Se eu pudesse, também a carregaria por ela.

 

Sab | 11.02.17

Saudade

A saudade tem nome?
Há quem creia que sim.
Que lhe outorgue rostos, lugares, momentos e ensejos. Saudade é pena, é ânsia, é lembrança, é um reencontro com a reminiscência, um sentir sem querer, um querer sem saber, se a saudade existe e é real, porque se quer, ou porque remembrar, é um modo de querer e viver.
Revejo a saudade nos ramos da árvore antiga, que espreitam o primeiro andar do edifício antigo, cujas raízes golpeiam implacavelmente o chão. A força do vento faz baloiçar os seus ramos fortes e com ele oiço o som infindável do seu uivo, que clama por tempos antigos.
Saudade é divagar, é viajar dentro de nós mesmos, mas para que tal ocorra, é necessário sair. E nem sempre tempos consciência da jornada que se inicia.
Percebemo-nos dentro dela quando, inexplicavelmente, a nossa mente nos guia pelos caminhos longínquos do passado, sem que percebamos porquê. Circunstâncias supostamente insignificantes, que surpreendentemente preenchem um espaço e um tempo, em nós.
Figuras que fizeram parte da nossa vida e que mal memoramos, surgem inexplicavelmente, na vigília do nosso espírito, como se, afinal, o seu papel fosse superior ao que lhes outorgámos e determinámos.
Espaços e momentos desmemoriados, surgem e com eles nos arrojam, como se, contra todas as possibilidades, ali pertencêssemos, gerando um trio e um todo extraordinariamente complexo: mente, espírito e pensamento.
Remiro-me nos ramos daquela árvore, porque como eles vou meneando, com a força incessante do vento. O som insistente do seu uivar amedronta-me e faz-me duvidar.
Mas como as suas estirpes, também as minhas raízes, me prendem à terra e falam mais alto.
A saudade não tem nome. Tem cheiro, tem sabor e tem cor.
Tem o cheiro da terra molhada, acabada de regar.
Cheira a um dia de chuva, a um estojo de lápis novo, à escola a começar.
Cheira ao café da avó acabado de fazer, na velha cafeteira, que ferve no fogão, por baixo da chaminé antiga.
Cheira à maresia, numa manhã de verão, fria.
Sabe à doçura de um abraço carregado de ternura, ao afago e aconchego dos lençóis, ao deitar, no fim do dia.
Sabe à canja de galinha da mãe, que tudo cura, com amor.
Tem a cor do arco íris, num dia em que a chuva se cruza com o calor.
Saudade não tem nome, mas tem cheiro, sabor e cor.
Saudade, cheira a um jardim colorido, numa manhã de primavera. Sabe a um bolo caseiro com tempero de amor. Tem a cor do pôr do sol, num fim de tarde de verão, que fecha o dia e aquece a alma. E o coração.
 
 

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Sab | 11.02.17

Memórias

Adorava chegar a casa dos meus avós maternos e encontrar a minha avó, sentada no quintal, num banquinho baixo de madeira, daqueles que só encontramos nas casas antigas, com o seu cabelo solto após o banho, que aos oitenta e muitos anos era ainda farto, comprido e encaracolado.
Uma ondulação que resistiu a uma vida inteira de repuxamentos, a dias passados sem tempo para tratar do corpo nem da alma, em que o trabalho não dava tréguas nem descanso.
Os seus caracóis eram agora grisalhos e enquanto a minha avó puxava com esforço, o braço já de si fraco e cansado, ia penteando os cabelos, num movimento descendente.
Eu observava, encantada, os pequenos caracóis que se formavam junto ao pescoço, que não se resignavam ao poder da travessa.
Pedia-lhe então se a podia pentear.
Ela passava-me a pequena travessa para as mãos, e eu, do alto dos meus nove ou dez anos, puxava uma cadeira, sentava-me atrás da sua cabeleira e iniciava, fascinada, a minha tarefa. Enquanto a penteava sem pressas, porque naquele tempo, o tempo não contava, ela ia-me dizendo, com orgulho, que o meu cabelo era como o dela, que se o deixasse crescer logo via.
Ninguém mais, na família, o tinha herdado. Apenas eu, a neta mais nova, que nasceu tardiamente. Sentia-me rejubilar interiormente. Especial.
Eu olhava para as pontas escuras e desgrenhadas do meu cabelo curto e cheio de caracóis e por dentro regozijava com a perspectiva de o deixar crescer.
Pensar na luta que a minha mãe e eu travávamos, sempre que depois do banho, se impunha passar um pente ou uma escova, que nem o shampoo comprado especificamente para o meu tipo de cabelo, na farmácia, conseguia domar, era um pensamento que me fazia arrepiar e ficar com pele de galinha. Não, admitia interiormente, quanto mais curto melhor.
Mas os da minha avó…eram sem dúvida o fruto do meu encantamento.
Após penteado o cabelo, era chegada a hora de fazer a trança. Escusado será dizer que foi esta avó quem me ensinou a fazer tranças.
Com a sua voz calma e doce, dizia-me para passar à frente, ora uma, ora outra mecha de cabelo, até a trança se ir formando, qual truque de magia.
Atava-a então e depois prendia-a ela, com os seus dedos trémulos, atrás da cabeça. Normalmente, eu colaborava no fim, colocando um ou outro gancho.
Durante os longos minutos que todo este processo demorava, conversávamos.
Falava-me da sua terra, porque apesar de se ter vindo embora aos dezoito anos, era ainda a sua terra.
Percebo agora que pertencemos sempre ao lugar onde nascemos. Por mais estradas que percorramos, não há nenhuma que não nos conduza ao início do caminho.
Falava-me da sua infância. Da casa onde vivia com os irmãos e os pais, de outros familiares com quem cresceu e se relacionou, pessoas que na sua maioria já não existiam.
Existiram numa outra vida, num outro tempo.
Mas ao ouvir as suas palavras, eu sentia como se todos os nomes que ela pronunciava, fossem ainda reais, fizessem ainda parte das nossas vidas.
O amor e o carinho com que os recordava, dava-lhes existência novamente, fazia-me imaginar como seriam, criava na minha mente cenas das histórias que ouvia, atribuía às personagens rostos, expressões, e ouvia admirada, mergulhada numa nuvem de encantamento, da qual nunca me apetecia descer.
E creio que foi então que o meu amor pelas histórias aconteceu.
Recordo outras tardes em que sentada no mesmo banco, a minha avó remendava uma roupa ou um pano qualquer. Sim, um pano. Porque todos os panos da cozinha eram aproveitamentos de um tecido e todos eram impecavelmente cozidos.
Às vezes sentia-me com sorte e pedia-lhe para passar a ferro. Quando ela estava prestes a terminar, desligava o ferro da corrente eléctrica e colocava os tais panos da cozinha para que eu passasse, enquanto o ferro ainda estava quente.
E eu passava, claro. Passava e dobrava, meticulosamente.
Enquanto a minha avó costurava, sentava-me ao seu lado. Quando ela tinha tempo, talhava roupas para as minhas bonecas, que eu depois cozia, maravilhada com a experiência de fazer a agulha entrar e sair do tecido.
Talvez por isso, ainda hoje eu goste de me entreter com os trapos e dê por mim tantas vezes de agulha e linha em punho, horas a fio, em que tudo à minha volta parece deixar de existir, o meu pensamento aparta-se do mundo e centra-se unicamente na tarefa empreendida.
Temos mais dos nossos em nós do que supúnhamos, quando mais novos.
Vamo-lo percebendo, com o passar dos anos, com o passar da vida em frente aos nossos olhos, tantas vezes fechados.
Com esta avó aprendi o poder da entrega, a importância do reconhecimento das nossas raízes, o dever de as manter vivas e bem presas à terra, porque são elas que nos mostram que não provimos do vazio, que determinam até onde podemos ir.

“Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo." (Pablo Neruda)


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"A razão do que somos"

Sex | 10.02.17

Regressar

"Pouco a pouco, a vida foi morrendo e nascendo novamente. Dura lição a nossa. Nascer e morrer, perder e ganhar, partir e chegar. (...) É estranho como hoje percebo que a vida se resume a sentimentos.
Sentimentos maiores que a própria vida, que resistem ao poder da morte. O amor torna-nos sempre mais fortes.
A mim, ajudou-me a despedir dos que amo, sim, que amo, porque o amor verdadeiro nunca morre. Ensinou-me a agradecer pelos netos que vi nascer, e é o amor que me tira o medo, nas noites compridas e frias, em que os sonhos me conduzem ao passado e eu me sinto criança novamente.
Acredito que um desses sonhos me conduzirá um dia, pela última vez, àquela rua esburacada e empoeirada da minha memória, onde os sons dos gritos e risos dos meus irmãos ainda ecoam, onde verei novamente a dobrar a esquina os rostos dos meus pais e correrei, livre, ao seu encontro, de braços abertos. Sentirei novamente no meu corpo,o poder renovador do abraço, que só que ama verdadeiramente, reconhece.
E com eles, de mãos dadas..., regressarei a casa."
Catarina Betes (Não se nasce mulher por acaso)
 
 
 
 

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Sex | 10.02.17

Mulheres

Há quem diga “mulher ao volante, perigo constante”. Não concordo nada com isso. Até porque, se há condução que não exerça perigo sobre os outros condutores, é, com toda a certeza, a das mulheres. Apenas não ligamos a pormenores (falo no meu caso específico). Pormenores como onde está o macaco ou o triângulo, por exemplo.

Adiante. Recordo dois pequenos episódios que se passaram com moi méme, bem elucidativos do conteúdo do parágrafo anterior.

Há uns anos atrás, tinha pouco mais que vinte e três anos e dava aulas em Alverca. Normalmente ia de  comboio, salvo os dias de interrupção letiva, em que o horário era mais flexível e permitia-me, de vez em quando, ir de carro.

Num desses dias, recordo que até nem era para levar o carro, mas atrasei-me e como levava a minha filha mais velha, que devia ter uns dois anitos, decidi não ir de comboio. E lá me pus a caminho pela A1 no meu singelo e nem por isso menos excecional, citroen ZX. A meio da viagem, percebi que o carro começou a perder velocidade, eu acelerava, mas não se passava nada, até que tive que encostar em plena auto-estrada. Pensei o que deveria fazer numa situação daquelas e a resposta era óbvia: ligar ao marido.

Ele atendeu e a primeira observação foi: “- Não te disse para ires de comboio?”. Fiquei irritada e desliguei a chamada. Sinceramente! O que uma mulher num momento de crise, tem que ouvir. Poucos segundos depois o telemóvel tocou.

- Já puseste o triângulo?

Triângulo???

- Não. – respondi.

- Então põe e depois liga para o número da assistência em viagem, que está no documento do seguro.

E assim fiz. Ou quase. Certifiquei-me que a Filipa não saia do carro e aventurei-me à procura do triângulo.

Procurei na mala do carro, procurei e nada.

Ok. Toca a ligar novamente ao marido.

- Não vejo o triângulo.

- Está ai. Ainda no fim de semana o vi.

- Estou-te a dizer que não está.

- Procura melhor.

Enfim. Decidi ligar para o número da assistência em viagem e só depois voltar à questão triângulo. Minutos depois, após a garantia de que o reboque chegaria, voltei à mala do carro à procura do dito.

Eis senão quando, para uma carrinha cheia de luzinhas atrás de mim, com todo o ar de que vinha resolver a coisa. Uns senhores saem e dirigem-se a mim.

- Bem, vocês são mesmo rápidos! – disse encantada, por a ajuda vir tão depressa.

- Nós somos da Brisa. O que se passa?

(lol!)

- Ah, ok. Estou à procura do triângulo.

- Está aqui. – apontou um dos homens.

What???

Olhei e realmente vi uma caixinha retangular num dos cantos da mala. Recordo que entre a vergonha e a irritação, pensei algo do tipo: Porque é que eu nunca oiço nada do que o homem lá de casa me diz???

- Como quem não quer ficar sem resposta ainda digo:

- Pois, mas isto é um retângulo e eu estava à procura dum triângulo!

E pronto. Posto isto, resta acrescentar que eu e a minha Pipinha (que batia palmas de excitação), chegámos à escola em grande estilo, sentadinhas no camião do reboque.

A outra situação passou-se talvez uns dois anos mais tarde, desta feita já eu era uma condutora muito mais experiente e ciente dos materiais de apoio ao condutor.

Estava a almoçar com uma colega no único restaurante do Pé da Pedreira ( nome da terrinha onde nesse ano dei aulas), comendo uma sopita, porque vencimento de professor, naquele lugar, não dava para muito mais, quando olhei para um rapaz ucraniano que ali almoçava todos dias e que ia a sair.

Comentei, a reinar, para a minha colega:

- Vês? Nós aqui na sopinha e o ucraniano todos os dias come o belo prato do dia!

- e rimos as duas.

O rapaz, que entretanto já tinha saido do restaurante, regressa e vejo-o avançar na minha direção. Entro subitamente em pânico e digo baixinho à minha acompanhante:

- Bolas! Ele ouviu o que eu disse e vem-me perguntar o que é que eu tenho a ver com o que ele come!!!!

Ele aproxima-se e diz-me:

- Tu tens furo.

Não percebi à primeira. Não sei se da pronúncia, se do medo.

- O quê?- pergunto.

- Tu tens furo. No carro.

Finalmente lá entendi, passado o nevoeiro do pânico.

Levantámo-nos e fomos as duas atrás dele. Tinha um pneu do meu rico citroen, em baixo.

- Tens macaca?- pergunta ele.

Olhámos uma para a outra e entre a vontade de rir e o não sabermos muito bem o que fazer, lá coloquei um ar sério e abri a mala. Vi lá o tal triângulo, e, num canto, um aspirador que já não recordo o que lá estava a fazer.

- Tenho um aspirador. Serve?

O rapaz, não entendendo a piada, dirigiu-se ao seu carro e trouxe o seu próprio macaca. E foi um querido. Trocou o pneu e a cena foi de filme. Ele todo transpirado enquanto nós as duas ali estávamos, de braços cruzados.

Falta contar que no dia seguinte, paguei o seu almoço, como forma de agradecimento.

Nos dias seguintes, sempre que nós as duas chegávamos, os nossos cafés já estavam pagos e o rapaz passou a rir-se muito para nós.

Chegámos à conclusão que o nosso costume de agradecer não devia ser-lhe familiar e a situação tornou-se estranha.

Posto isto, tivemos que começar a ir almoçar à aldeia vizinha.

Enfim. A vida é difícil.

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